quarta-feira, 18 de abril de 2012

AVANTE TRABALHAR!


Ao nos depararmos com nossa alma repleta de sombras ficamos paralisados de terror. Enquanto ainda estamos aqui encarnados, e apesar de muito doloroso, temos a oportunidade de trabalhar para inverter essa situação, invocando a Luz Divina para habitar e preencher nossa alma. A vida na carne é a grande dádiva divina que nos proporciona anos e anos de oportunidades para restabelecer a ordem e o equilíbrio onde há conflito, mas por não termos o conhecimento dessa escuridão e nem como iluminá-lo, permanecemos nas sombras de nós mesmos à espera de um milagre. Se esse conhecimento não vem ou deixamos que ele se vá sem compreendê-lo, chegamos ao fim da nossa estrada terrena com mais sombras e peso sobre nossos ombros do que quando aqui chegamos. Vivemos um tempo em que a ordem do mundo parece estar invertida e nos sentimos atraídos por este fluxo negativo levando-nos a aumentar mais e mais nossa bagagem cármica a ponto de não suportar carregá-la.

Quando damos o passo em direção ao mundo invisível estamos sobrecarregados, tristes, frustrados e cheios de cólera. E quando a luz explode em nossa frente ficamos cegos por não estarmos acostumados à ela, e isso nos faz perder a oportunidade de usufruir do paraíso de Deus, que mantém muitas moradas para abrigar seus filhos queridos enquanto eles ainda engatinham na escala espiritual, permanecendo então ancorados pelo nosso peso no plano astral, rondando a vida na Terra e nossos apegos. Esperamos eternidades por uma nova oportunidade de nascermos com o objetivo de nos desfazermos de bagagem tão dolorosa para começarmos tudo outra vez.

Imaginem que maravilha nos depararmos com a Luz que vem ao nosso encontro do outro lado da vida e ao reconhecê-la, imediatamente deixamos-nos abraçar por sua suavidade amorosa para nos conduzir à uma nova e iluminada morada! Só conseguiremos essa vitória se nos prepararmos aqui, se tivermos a coragem de enfrentar o imenso desafio de encararmos nossas angústias, medos, apegos e libertarmos nossa alma tão cansada do peso cármico acumulado vida após vida. Temos em nossas mãos a ferramenta necessária para realizar essa limpeza e purificação preparando-nos para o encontro com a luz, basta que tomemos a decisão de fazê-lo.

Hoje, ao reconhecer o peso que me prendia à um determinado problema, imaginei se isso tivesse acontecido somente após o meu desencarne, então me assustei. Como poderia perder a grande nave iluminada que iria me transportar para céus mais elevados só porque não tive coragem de enfrentar certos desafios aqui nesta vida? Meditei e senti que tenho muito trabalho ainda para realizar e eu não posso me acomodar, não posso esperar porque o tempo é curto e eu preciso vencer todas as provas a que vim enfrentar, e ao fim do meu caminho, quando eu der o primeiro passo em direção ao desconhecido eu possa reconhecer a Luz e instantaneamente ir ao encontro dela. Então estarei pronta para habitar num céu mais claro, amoroso e cheio de luz.

Que os Serafins de Deus comandados pelo amado Justinius me preencha com a pureza que me elevará à minha próxima morada.

João 16


Em verdade, em verdade vos digo, se pedirdes alguma cousa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome.

Eu pedi ao Pai que me concedesse a Justiça Divina num caso complicado que se arrasta há 14 anos, e ontem, confiante que minha súplica havia penetrado no coração de Deus, esperei pela solução. Mas eis que depois de orar, suplicar e chorar pedindo pela minha libertação durante todos esses anos, a resposta não me trouxe alegria. Não no primeiro momento. A minha expectativa era de que todo o meu sofrimento pudesse ter consumido aquele carma e que a resposta divina incendiasse meu coração de satisfação, mas ao contrário, quando recebi a resposta foi como se um muro de pedras muito pesado desabasse sobre mim e me sufocasse. A minha primeira reação foi de perplexidade, surpresa. Permiti mais uma vez que meu eu inferior apontasse seu dedo e me fizesse reagir negativamente àquele choque, mas, imediatamente voltei-me ao meu Santo Cristo e perguntei: Por quê? Porquê mais uma vez a história se repete e apesar das minhas súplicas o resultado continua inalterado? O que falta eu aprender nessa situação para que eu receba a Tua graça?

Como se Ele esperasse apenas a minha pergunta, ouvi a Voz do meu coração dar sua resposta, dizendo todas as palavras ao mesmo tempo, como um relâmpago poderoso que atingisse o âmago do meu ser, dando-me a compreensão do que faltava para que a resposta divina soasse como música aos meus ouvidos. Num tempo ínfimo dentro do tempo normal, compreendi a razão que estava tão clara, mas que eu não conseguia enxergar: o passado.

Oh! como somos fracos ainda! Como somos cegos e ingênuos! Como não compreender que a minha história tinha sua origem bem lá atrás no tempo?! Enxergamos com os olhos da carne, pensamos com nossa mente humana e nos enganamos porque, talvez no intuito de nos protegermos de nós mesmos, não avançamos a nossa pesquisa e deixamos de perceber que não podemos mudar os erros do passado sem que eles sejam compreendidos, e muitas e muitas vezes esses erros estão escondidos no nosso corpo da memória e com medo da realidade não conseguimos atravessar a porta que nos dá a dimensão de quem realmente somos e que cometemos erros terríveis; que fomos egoístas, insensatos, arrogantes, intransigentes, quiçá outras coisas mais!

Então, nesse milionésimo de segundo que o raio incandescente da voz do meu coração percorreu meu ser, essa porta foi aberta e eu compreendi, senti que a Justiça Divina que eu esperava tanto havia se manifestado e estava me libertando do passado. Mesmo que ela viesse com uma roupagem diferente da que eu esperava, era exatamente a chave que abria a porta para a minha libertação.

Quantas vezes pedimos, pedimos e esperamos ansiosos por uma resposta, aquela que nós queremos ouvir, e não nos damos conta de que Deus nos responde a todo instante, mas nós não conseguimos compreender suas palavras e continuamos a pedir, e a cobrar uma solução só porque ela não é aquela que nós esperávamos. Nada fica sem a resposta de Deus. Nós é que somos surdos e insensíveis aos desígnios do Pai, pois Ele não nos desampara e nem nos deixa sem uma resposta, apenas nos dá aquilo de que precisamos para aprender a lição para nunca mais voltarmos a errar. Precisamos a cada dia prestar mais atenção, estarmos mais próximos Dele para que suas palavras sussurradas em nossos corações possam ser ouvidas e compreendidas.

Então, num passe de mágica aquela ansiedade e tristeza desapareceram completamente e senti a paz envolvendo-me completamente, tendo sensação de que os elos do passado haviam sido rompidos e eu finalmente estava livre.

Vitória sempre na Luz de Deus que nunca falha!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

SEXTA-FEIRA SANTA


Hoje, e em cada sexta-feira Santa, a humanidade acorda de seu sono profundo e, em pé ante as sombras do século, olha através das lágrimas o Monte Gólgota para ver Jesus crucificado em sua cruz.... Mas assim que o sol se põe, a humanidade volta a ajoelhar-se perante os ídolos que se erguem sobre todos os montes.

Hoje, guiados pela recordação, as almas dos cristãos dirigem-se de todos os cantos do mundo às cercanias de Jerusalém para contemplar uma sombra coroada de espinhos, que estende os braços até o infinito e penetra, através do véu da morte, as profundidades da vida. Mas, mal as cortinas da noite tenham descido sobre o palco do dia, os cristãos voltam a deitar-se à sombra do esquecimento, embalados pela ignorância e a indolência.

Hoje, e em cada Sexta-Feira Santa, os filósofos abandonam suas grutas escuras, os pensadores,seus eremitérios frios, e os poetas, seus vales de quimeras, para se reunirem numa alta montanha e escutarem, calados e reverentes, um jovem dizer de seus assassinos: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem".

Mas, mal a quietude tenha apagado os ruídos do dia, os filósofos, pensadores e poetas voltam a envolver suas almas nas mortalhas de livros gastos.

As mulheres distraídas pelo brilho da vida, apaixonadas por joias e vestidos, saem hoje de suas casas para ver a mulher dolorida, de pé frente à cruz como uma árvore flexível frente às tempestades do inverno.

Os jovens e as jovens que se deixam levar pela corrente da vida sem saber aonde vão, param hoje um instante para contemplar a Madalena Lavando com suas lágrimas o sangue que mancha os pés do homem erguido entre a Terra e o Céu. Mas, quando se cansam desse espetáculo, desviam os olhos e continuam seu caminho entre risadas.

Num dia como este, todos os anos, a humanidade acorda com o despertar da primavera e chora pelos sofrimentos de Cristo; mas, depois, fecha os olhos e se entrega a um sono profundo.

A humanidade é uma mulher que se deleita em se lamentar pelos heróis do séculos. Se fosse homem, regozijar-se-ia pela sua grandeza e suas glórias.

A humanidade vê Jesus o Nazareno nascendo e vivendo como um pobre, ofendido como um fraco, crucificado como um criminoso, e chora-o e lamenta-o. E é tudo o que ela faz.

Desde há dezenove séculos, adoram a fraqueza na pessoa de Jesus, conquanto Jesus fosse um forte. Mas eles não compreendem o sentido da verdadeira força.

Jesus não viveu como um covarde, nem morreu sofrendo e queixando-se. Viveu como um revolucionário, e foi crucificado como um rebelde, e morreu como um herói.

Não era Jesus um pássaro de asas partidas, mas uma tempestade violenta que quebra, com sua força, todas as asas tortas.

Jesus não veio do além do horizonte azul para fazer da dor o símbolo da vida, mas para fazer da vida o símbolo da verdade e da liberdade.

Jesus não receou seus perseguidores, e não temeu seus inimigos, e não sofreu nas mãos de seus executores, mas era livre à face de todos, audacioso para com a injustiça e a tirania: quando via tumores pútridos, puncionáva-os; quando ouvia o mal falar, impunha-lhe silêncio; quando encontrava a hipocrisia, esmagava-a.

Jesus não desceu ao mundo da luz para destruir as nossas casas e, com suas pedras construir conventos e eremitérios. Não veio para tirar os homens fortes de suas ocupações e fazer deles monges e padres.

Mas veio para insuflar na atmosfera deste mundo uma alma nova e forte que destrói, até as fundações, os tronos elevados sobre os crânios e desmantela os palácios erguidos sobre os túmulos, e derruba os ídolos impostos aos espíritos fracos e humildes.

Jesus não veio ensinar os homens a elevar igrejas suntuosas ao lado de casebres miseráveis e de habitações frias e escuras, mas veio para fazer do coração do homem um templo, e de sua alma um altar, e de sua mente um sacerdote.

Eis o que Jesus o Nazareno fez, e eis os princípios que pregou e pelos quais se deixou crucificar por sua própria vontade. E se os homens fossem mais penetrantes, celebrariam a data de hoje com alegria, e risos e canções de vitória e de triunfo.

E tu, gigante crucificado, que olhas do alto do Gólgota as caravanas dos séculos; que ouves o barulho dos povos, que compreendes os sonhos da eternidade, tu és, sobre tua cruz manchada de sangue, mais majestoso e mais soberbo que mil reis com mil tronos e mil reinos. E tu és, entre a agonia e a morte, mais poderoso e mais temível que mil generais com mil exércitos e mil troféus.

Tu és, na tua melancolia, mais alegre que a primavera com suas flores. Tu és, nas tuas dores, mais sereno que os anjos em seu paraíso. Tu és na mão dos carrascos, mais livre que a luz do sol. A coroa de espinhos em tua cabeça mais formosa e mais augusta que a coroa de Buhram, e o prego na palma de tua mão é mais imponente que o cetro de Muchtary.

E as gotas de sangue que correm em teus pés são mais brilhantes que as joias de Astarté. Perdoa, pois, a esses fracos que se lamentam sobre ti, em vez de se lamentarem sobre si mesmos.

Perdoa-lhes porque não sabem que venceste a morte pela morte, e deste vida aos que estão nos túmulos.

Gibran Khalil Gibran
do livro Parábolas