sábado, 20 de abril de 2013

Uma Investigação Sobre a Música da Alma Imortal


Ao criar a famosa frase “Um por todos, e todos por um”, o escritor francês Alexandre Dumas expressou um axioma universal. A ideia constitui um ponto básico da pedagogia adotada desde a mais remota antiguidade pelos sábios e Iniciados do Oriente.

Já no século 19, Helena Blavatsky escreveu:

“Mesmo que pequeno, um grupo ou loja só poderá ser teosófico se todos os seus membros estiverem magneticamente ligados entre si, pelo mesmo modo de, pelo menos, olhar na mesma direção.” [1]

A qualidade parece ser mais importante que a quantidade, e um dos Mestres que inspiram o movimento esotérico moderno estabeleceu estas bem conhecidas diretrizes:

“Um grupo de estudantes das Doutrinas Esotéricas que queira obter qualquer proveito espiritual deve estar em perfeita harmonia e unidade de pensamento. Cada um, individual e coletivamente, deve ser, no mínimo, totalmente altruísta, gentil e pleno de boa vontade em relação a cada um dos outros - para não falar da humanidade; não deve haver espírito de facção em meio ao grupo, nem maledicência, má-vontade, inveja ou ciúmes, desprezo ou cólera. O que fere um deve ferir o outro - aquilo que alegra ‘A’ deve encher ‘B’ de prazer.” [2]

A filosofia esotérica atravessa e inclui diferentes culturas, no espaço e no tempo. Um aspecto interessante da ideia central que estamos examinando é explicado nas 72 Afirmações que resumem os ensinamentos éticos de Sri Ramanuja, um dos pensadores mais significativos da filosofia Vishistadwaita. A tradição afirma que Sri Ramanuja viveu nos séculos 11 e 12 da era cristã, e a primeira das suas 72 Afirmações diz o seguinte:

“O ato de servir o instrutor (Acharya) e o ato de servir qualquer outro devoto (Bhagavata) devem ocorrer paralelamente. Sirva a cada devoto do Senhor (Bhagavata) assim como você serve ao seu próprio instrutor espiritual.”[3]

Adaptando estas palavras clássicas ao contexto do movimento teosófico moderno, poderemos dizer:

“A sua atitude real e interna em relação aos Mestres - a fonte do ensinamento - é inseparável da sua atitude em relação a seus colegas de estudo. Pense nos colegas como partes do trabalho do seu próprio Mestre, e tenha por eles um sentimento similar ao sentimento que você tem pelo esforço do Instrutor.”

Todo conhecimento implica uma responsabilidade equivalente. O Mestre não é uma personalidade. Não é possível localizar o instrutor através de alguma visão. O contato com a fonte real de conhecimento surge como algo mais claramente consciente ao trabalhar de modo durável e firme por um projeto nobre, coletivo, e de longo prazo.

Um trecho da chamada “Carta de 1900” contém outra chave para a compreensão do axioma pedagógico expresso pelas palavras “um por todos e todos por um”. Ali um dos Mestres esclarece:

“Em períodos favoráveis, liberamos influências elevadoras que impressionam várias pessoas de diferentes maneiras. É o aspecto coletivo de muitos destes pensamentos que pode dar o rumo correto à ação. Não temos favoritismos. A melhor maneira de corrigir o erro é um exame honesto e com a mente aberta de todos os fatos, subjetivos e objetivos.” [4]

Uma profunda sinceridade entre os colegas de estudo é, pois, um ponto essencial. É apenas através da harmonia entre eles que os estudantes podem obter uma visão mais ampla e mais profunda da influência e do ensinamento dos Mestres, assim como uma visão crescentemente lúcida de si mesmos como indivíduos.

H.P. Blavatsky acrescenta que o aprendizado será mais eficaz se os estudantes compararem com regularidade as suas anotações e pontos de vista sobre a caminhada individual. Numa carta de 1887 dirigida a teosofistas de Londres, ela escreveu que “a primeira regra na vida diária de um estudante” é “nunca deixar de prestar atenção às menores circunstâncias do que ocorre, seja em suas vidas ou nas vidas dos seus colegas de trabalho”.

Para H. P. B., estes detalhes observados,  “mesmo que não estejam relacionados com a busca espiritual”, devem ser incluídos nas anotações individuais dos esforços de cada um ao longo do caminho. E então os estudantes devem “ligar (religare) todos os fatos comparando notas com os registros dos outros estudantes, e alcançando, assim, o seu significado interior.”

A Sra. Blavatsky acrescenta:

“É a partir destas totalizações que vocês podem descobrir a direção e o caminho a seguir.”

Algumas linhas mais adiante, depois de referir-se à “verdadeira luz”, ela escreve:

“Trabalhando sozinho ninguém pode conseguir isso, mas quando há vários, é comparativamente fácil.”

H. P. B. também diz aos estudantes de Londres o que ocorrerá se eles falharem neste ponto: “então vocês nunca estabelecerão em seu grupo a primeira condição necessária: uma perfeita unidade de pensamento e harmonia entre os seus seres espirituais.” [5]

Desde a antiguidade, a tradição esotérica tem usado uma metáfora musical para descrever o processo de cooperação entre colegas de estudo. A consciência compartilhada em um grupo de buscadores da verdade funciona como uma Vina, o instrumento de cordas do Oriente, similar a um alaúde.

Se as cordas da consciência estiverem muito tensas ou esticadas, uma boa música não é possível. Se estiverem demasiado soltas, não haverá som algum. O clássico “A Voz do Silêncio” afirma:

“Os discípulos podem ser comparados às cordas da Vina, que ecoa a alma. A humanidade é como a sua caixa sonora; a mão que a toca é como o alento musical da GRANDE ALMA DO MUNDO. A corda que deixa de responder ao toque do Mestre em harmonia com todas as outras, se quebra - e é jogada fora. O mesmo ocorre com as mentes coletivas dos Lanus-Shrávakas. Eles têm que estar afinados com a mente do Upadhyaya - em unidade com a Alma Maior - ou afastar-se.” [6]

Cada indivíduo humano é um resumo do cosmo e do sistema solar, e em “A Doutrina Secreta” podemos ler:

“Viva sua vida da forma necessária para a aquisição deste conhecimento e destes poderes, e a Sabedoria virá naturalmente até você. Quando for capaz de sintonizar a sua consciência com cada uma das sete cordas da ‘Consciência Universal’, as cordas que atravessam a caixa sonora do Cosmo e vibram de eternidade em eternidade, quando tiver estudado completamente ‘a música das Esferas’, só então você terá completa liberdade de compartilhar seu conhecimento com aqueles em quem é seguro confiar.” [7]

Um grupo de estudantes de filosofia esotérica tem sua verdadeira base na consciência de cada um dos seus integrantes. “Um por todos” significa que o indivíduo tem em si o alicerce do trabalho comum.  A fonte de harmonia coletiva deve estar na harmonia do indivíduo com seus próprios níveis superiores de percepção.   

Os sete princípios da consciência humana são, pois, como as sete cordas de um instrumento musical. O filósofo francês Maine de Biran - que deixou a vida física precisamente sete anos antes do nascimento de H. P. Blavatsky - faz uma expansão interessante da metáfora da Vina.

Biran vê o eu inferior de cada ser humano como semelhante a um instrumento de cordas, enquanto que o eu superior representa o músico que toca o instrumento. Ele escreve:

“Surge no meu espírito uma outra comparação (já que, sobre este assunto tão complexo, buscamos sempre apoiar-nos em objetos materiais). Eu compararia as almas aos músicos que tocam um instrumento; o instrumento seria formado pelas fibras do cérebro. Suponho que cada músico recebe como um legado da natureza um instrumento que corresponde à sua própria habilidade”.

Em seguida, o filósofo faz uma advertência:

“O instrumento não estará sempre de acordo com a vontade do tocador. As suas cordas ficarão tensas ou frouxas devido a causas que são independentes da vontade do músico, de modo que ele às vezes será capaz de tocar com facilidade, e pensará que o instrumento está à sua disposição; em outras ocasiões, ele ensaiará em vão, e as cordas, frouxas, tornarão inútil todo o seu conhecimento, fazendo com que o músico fique frustrado.” [8]

A filosofia esotérica original ensina seus estudantes a praticar conscientemente a música da alma imortal de cada indivíduo, e também a fazer parte ativa da música da alma universal.

Quanto mais um ser humano compartilha os efeitos curadores deste som silencioso com outros indivíduos e com a humanidade em seu conjunto, mais ele próprio é beneficiado pelo conhecimento prático da lei da harmonia.  

Carlos Cardoso Aveline



quinta-feira, 18 de abril de 2013

A VONTADE DE DEUS


A vontade de Deus é uma aventura sagrada. Disse-o assim por uma razão: o indivíduo comum considera um encontro com a vontade de Deus uma possibilidade remota. Ele reza para que lhe seja revelada a vontade de Deus, mas não compreende que pode perceber essa vontade num relance a priori, enquanto ainda vive na forma mortal. Não compreende que a vontade que ele vê pode também ser captada, em parte, como um tesouro da consciência, e conduzida de volta ao domínio da vida interior. Aí, o grande imã da verdade atua como um revelador divino para mostrar ao todo homem, no fundo do seu coração, aquilo que é realmente a vontade de Deus”.
Texto extraído da pág.45 do livro “Senhores dos Sete Raios” de Mark e Elizabeth Clare Prophet.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Saúde das Emoções



A Saúde das Emoções


Preservando o Equilíbrio
Entre Corpo, Mente e Sentimento


Carlos Cardoso Aveline



Seja qual for nossa idade ou classe social, a saúde é uma condição decisiva para que tenhamos êxito e felicidade na vida.  É um capital tão valioso e único que o mínimo que se pode dizer é que deve ser bem administrado. Em meio às pressões do mundo atual, esta tarefa nem sempre é simples. Como aplicar bem o capital chamado saúde, diante das oscilações do mercado? Como empregar corretamente nossa energia vital, de modo que nosso bem-estar e poder de ação aumentem, e não tenhamos um déficit na contabilidade energética?

O bem-estar físico, emocional e mental é, na verdade, um único processo dinâmico. O equilíbrio e a harmonia das nossas forças começam em nossa vida emocional. Na primeira metade do século 20, a medicina pareceu esquecer a relação entre mente e corpo, mas agora ela está sendo renovada por uma visão integrada da vida. O ser humano é visto como um todo inseparável do cosmo. Nem o espírito, nem a mente, muito menos a emoção ou o corpo físico podem ser compreendidos isoladamente.

A nova noção de saúde é sobretudo preventiva e não-violenta. Ela admite procedimentos invasivos apenas como último recurso.

Saúde é a boa administração da energia vital que passa por nós. A meditação, a prática moderada de exercícios físicos, a vida afetiva equilibrada, a inteligência emocional, a definição de objetivos claros na vida e a prática da solidariedade na profissão e nos relacionamentos humanos podem manter-nos perfeitamente saudáveis, sem o sofrimento físico ou emocional desnecessário.

A única utilidade possível de alguma doença que tenhamos é fazer-nos repensar o rumo da nossa vida e o modo como estávamos usando a energia vital que flui por nós. A doença é um alerta. Uma dor de cabeça, um cansaço, um desânimo ou uma gripe têm mensagens para nós: significam que houve alguma falha em nosso equilíbrio emocional. São as emoções que estabelecem a relação prática entre corpo e alma. A dieta, certa ou errada, também resulta da vida emocional e dos desejos que alimentamos.

A consciência mais ampla que agora renova a noção de saúde é bastante antiga.  Milhares de anos atrás, os sábios ocidentais afirmavam que a arte mais divina é a arte de curar. E ela deve ocupar-se tanto da alma como do corpo, pois nenhum ser pode ser inteiramente saudável enquanto sua natureza interior estiver sofrendo.

Cada ser humano pode ser visto como uma espécie de aparelho receptor de energia cósmica. Recebemos o tempo todo diferentes variedades de energia do cosmo.  Nossa função é expressar criativamente esta energia nas várias dimensões da vida, participando da evolução de tudo o que entra em contato conosco. A doença é apenas um bloqueio deste fluxo energético. A boa saúde física, emocional e mental consiste no fluxo correto da vida energética, que deve ser ao mesmo tempo livre e harmônico, espontâneo e organizado.

Durante a década de 80, o médico norte-americano Bernard Siegel desenvolveu um sistema de abordagem dos seus novos pacientes com algumas perguntas básicas que rompiam os limites da medicina convencional: [1]

1) Você deseja viver até os 100 anos?
(Para saber se há uma forte vontade de viver.)

2) O que significa a doença para você?
(Ela deve ser vista como um desafio positivo e uma lição útil.)

3) Por que você precisa da doença?
(A doença foi uma forma inconsciente de buscar amor, cuidados, atenção?)

4) O que aconteceu em sua vida algum tempo antes de adoecer?
(As emoções têm tudo a ver com as mudanças na saúde pessoal.)

Esta última pergunta visava mostrar que uma doença geralmente surge em determinada situação emocional que a torne possível ou até necessária, e, portanto, é, em parte, responsabilidade da própria pessoa. Devemos assumir responsabilidade pelo que nos ocorre, para assumirmos também responsabilidade pela cura que ocorrerá no futuro.

O Poder Curativo do Carinho

O médico Larry Dossey exemplifica no livro “Aspectos Espirituais das Artes de Curar”: [2]

“Minha percepção do seu carinho ou insensibilidade para comigo gera uma avalanche de alterações bioquímicas em meu próprio corpo. Processos neurológicos e hormonais se sucedem, como uma cascata, em consequência do modo como sinto nossa interação. Não se trata de questões filosóficas remotas ou abstratas, mas de consequências fisiológicas concretas. Sinto que isto tem sido extremamente subestimado, passando geralmente despercebido pelos filósofos, cientistas e médicos”.  

“Se eu o trato com delicadeza e compaixão”, diz o médico, “isto poderá suscitar em você um estado geral mais saudável”.

A saúde, conclui ele, é uma questão de relações humanas. As agressões sutis podem levar à doença alguém que não saiba preservar a paz interior condicional. Mas o respeito mútuo produz boa saúde e bem-estar para todos. “Devido às nossas associações íntimas com os outros e com o mundo, não vejo como deixar de invocar conceitos de ética e responsabilidade em uma teoria global sobre a saúde e a doença”, diz ele. Para Dossey, nossas interações são tão complexas que é impossível determinar tudo o que fazemos ou causamos uns aos outros. Como, então, agir corretamente para preservar a saúde a longo prazo? Dossey responde:

“A chave pode estar simplesmente em ter bons propósitos, ter em mente que realmente afetamos uns aos outros e que a interação é a regra geral. Minha esperança é que compreender isto fará com que tenhamos cuidado e consideração pelo nosso próximo, pelos outros seres humanos, fator menosprezado em um modelo isolacionista (individualista) de saúde.”

Qualquer cidadão pode fazer experiências práticas para comprovar este ponto de vista. Basta sorrir mais e ser sinceramente mais amável com as pessoas para observar que uma interação fraterna faz com que nos sintamos melhor, inclusive fisicamente.

Práticas como a meditação e a oração, que afastam nossa mente do mundo das coisas pequenas e nos aproximam do que é vasto e eterno, são instrumentos poderosos para a melhora e a manutenção da saúde, própria e alheia.  O nosso equilíbrio vital depende da nossa capacidade de viver tendo presente o que é bom e sagrado. Se tivermos estas duas coisas, estaremos bem. É recomendável revisar regularmente nosso estado de espírito. O preço da desatenção pode ser a ambição desmedida ou a decepção e a tristeza, dois extremos que realimentam um ao outro. A virtude e a felicidade estão no caminho do meio da serenidade.

As emoções equilibradas são mais que uma questão de saúde: são, também, uma questão de inteligência. As tensões emocionais típicas do cidadão da sociedade industrial suprimem as relações profundas entre as pessoas, desumanizando-as e causando prejuízos à percepção racional das coisas. “Quando emocionalmente perturbadas, as pessoas não se lembram, não acompanham, não aprendem nem tomam decisões com clareza”, escreve Daniel Goleman em seu livro “Inteligência Emocional”[3], antes de citar palavras de um consultor na área da administração de empresas: “A tensão idiotiza as pessoas.”

Trocando a Raiva Pelo Amor

A raiva, explica Goleman, provoca circuitos energéticos e bioquímicos destrutivos no corpo e nas emoções. A teosofia ensina que a raiva destrói a substância da alma mortal na sua relação com a alma imortal. O amor altruísta, em compensação, cura as feridas e funciona como uma fábrica de bem-estar interior. A ciência das emoções, aliada da nossa dimensão espiritual, abre caminho para a felicidade e constitui uma chave para a serenidade e a saúde física.  

A saúde é a capacidade de estar em unidade dinâmica com a vida. O otimismo cura. A transmutação de ansiedade em paz, de depressão em ânimo, de tristeza em alegria e de solidão em solidariedade é um processo alquímico revolucionário, capaz de esvaziar consultórios médicos.

Um programa de saúde pública voltado para a nova era da civilização global poderia ter como meta, em primeiro lugar, um maior autoconhecimento dos cidadãos. Isto faria com que as pessoas tomassem suas vidas mais diretamente em suas próprias mãos em áreas como a qualidade dos seus pensamentos e sentimentos,  quantidade e qualidade de exercícios físicos, dieta alimentar, ou relaxamento físico e emocional.  

Em segundo lugar, um programa de saúde para a nova era poderá ter como objetivo o estímulo à criação de relações humanas baseadas na boa vontade recíproca, desmascarando os mecanismos de manipulação psicológica, de mentira e de chantagem emocional, entre outros. Assim se eliminará a necessidade de doenças físicas como um modo pelo qual o Carma leva as pessoas a pararem e avaliarem melhor suas vidas. Será importante o estímulo à inofensividade e à solidariedade com todos os seres. Plantar o bem é o caminho para colher o bem.

Em terceiro lugar, a medicina da nova era poderá combinar em grande escala os avanços tecnológicos da medicina convencional com o que há de melhor nas medicinas tradicionais. Um país em que seja adotado um programa de saúde deste tipo não produzirá só bens materiais. Produzirá também “o tesouro que está nos céus”. Plantará felicidade, colherá paz, e seus cidadãos expressarão, ao viver, uma síntese prática e harmônica entre terra e céu, estabilidade e transcendência, o humano e o divino, o finito e o infinito.

Esta estratégia de saúde não é só coletiva. Ela é também individual, e a possibilidade de colocá-la em prática está constantemente diante de nós: é sempre agora. A verdadeira saúde vem de dentro de cada ser consciente, e elimina, ou reduz, as causas do sofrimento.

Meditação Sobre a Relação Mente-Sentimento-Corpo

Para concluir este estudo, façamos uma experiência prática.

Sentado calmamente em lugar arejado, dê de presente para si mesmo 10 minutos de sossego. Deixe de lado as preocupações de curto prazo e relaxe.

Pense por um instante como a vida pode ser breve, mas é fascinante. Sinta seu coração bater, com fidelidade infalível, e agradeça a ele mentalmente. Perceba o fluxo sempre renovado de sangue pelo seu corpo todo,  e agradeça.

Respire fundo, com calma, e congratule-se pelo fato de estar vivo e atento, acordado e alerta.

Reconheça que a vida é preciosa demais para ser gasta em conflitos. Faça um voto incondicional de viver em paz com todos os seres. Estar vivo e atento é uma experiência tão vasta e significativa que não há motivo para ficar alimentando pequenas decepções e ilusões pessoais.

Durante os próximos dias, sorria mais para as pessoas. E para si mesmo. Solte-se e sorria agora mesmo para seu próprio coração e para o centro de paz que há em você.

Seja mais amável com as pessoas nos próximos sete dias, buscando expressar com isso apenas sua alegria incondicional de viver.

Estabeleça uma atitude geral de satisfação com a-vida-como-ela-é  e com  as-pessoas-como-elas-são.  Isso dá a você mais liberdade para administrar suas próprias energias: viver e deixar viver é um princípio da sabedoria teosófica.

E anote, a cada noite, alguma coisa dos resultados do dia. Abra seus diálogos com as pessoas através de um sorriso e observe o resultado. Observe a sua sensação física, seu estado mental e seu estado emocional quando você expressa uma atitude harmoniosa e sincera com os outros.

Seja firme quando necessário, porque firmeza é tão importante quanto flexibilidade; mas mantenha respeito e equilíbrio em todos os momentos. Deseje o bem dos outros, calma e deliberadamente, e veja como se sente depois. Reflita sobre as consequências desta atitude prática em relação à sua saúde, a curto, médio e longo prazo.

Ao final de uma semana de experiência, faça uma avaliação e decida se vale a pena ser mais amável com todos, independentemente dos altos e baixos da vida.

Ao fechar a meditação, lembre-se:

Felicidade não é ter seus desejos atendidos. É estar contente com a vida a cada momento, e usar para o bem, corretamente, a energia vital de que você dispõe hoje.

NOTAS:

[1] “Aspectos Espirituais das Artes de Curar”, de Dora van Gelder Kunz, organizadora; texto de Bernard Siegel e Barbara Siegel com título igual ao do livro, ver p. 65. O livro foi editado pela Editora Teosófica, de Brasília, e tem 308 pp.

[2] “Aspectos Espirituais das Artes de Curar”, obra citada, pp. 24-27.

[3] “Inteligência Emocional”, Daniel Goleman, Ed. Objetiva, RJ, 370 pp. ; ver p. 163.



Uma versão inicial do texto “A Saúde das Emoções” foi publicada na década de 1990 em um fascículo da “Coleção Planeta”, “Inteligência Emocional”, número 3, Editora Três, SP, pp. 19-25.  A versão acima foi atualizada pelo autor em março de 2013.

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domingo, 7 de abril de 2013

Como a Filosofia Elimina as Causas do Sofrimento


Desânimo, preocupação, ansiedade?  Experimente deixar de lado as inúmeras urgências que provocam o sofrimento do cidadão moderno.  A filosofia é uma atividade prática.  Respire fundo um instante, relaxe os músculos e decida pensar por alguns minutos em um assunto simples e eterno, o tema mais importante da vida: a felicidade humana.  
 
 
Mesmo estando instalado no século 21, você pode dialogar, através da filosofia, com os principais pensadores da Grécia, de Roma e da Índia. Basta desligar um pouco a televisão e as preocupações da semana que passou.  Parar um pouco não é perda de tempo. Felicidade é bom negócio: quem vive relaxado e de bem com a vida tem melhores chances de êxito em todas as áreas de atividade.  
O filósofo não é alguém que  fala coisas complicadas e que só ele entende. É   um cidadão que vive de maneira simples. Ele dedica sua vida a compreender o mundo e a si mesmo, de modo a produzir  paz interior e felicidade. A palavra “filósofo” significa apenas amigo da sabedoria. “Ser filósofo é o mesmo que ser bom”, escreveu Musônio Rufo no início da era cristã. Ele ainda disse:  “a filosofia consiste em ocupar-se da perfeita honestidade e nada mais”(1).
É verdade que os filósofos não dão muita importância às coisas de curto prazo. Eles parecem ter quase todo o tempo do mundo à sua disposição, e raramente são escravos do hábito de olhar para o relógio de cinco em cinco minutos. Além de atuar nas situações do seu próprio tempo, as diferentes gerações de filósofos  dialogam com bastante naturalidade entre si,   mesmo separadas umas das outras  por milênios. Um filósofo pitagórico diz algo  no século 6 antes de Cristo e outro filósofo responde no mundo romano, nos primeiros séculos da nossa era. A polêmica tem outro momento importante nos séculos 18 ou 19,   mas você pode participar dela no século 21 e também retomá-la em sua próxima encarnação, dentro de, digamos, uns 2000 anos. 
A virtude é um dos temas centrais da filosofia. O pitagórico Theages  afirmou: “a verdadeira virtude é o hábito de ficar dentro do que é adequado.” Musônio Rufo definia a questão como um processo científico-experimental: “a virtude é uma ciência não só teórica, mas também prática, assim como a medicina e a música”.  Para a filosofia clássica, a virtude é a capacidade de viver corretamente, isto é,  sem causar dor para si nem para os outros.  Nesta linha, o pitagórico Hipodamus concluiu: “A felicidade não pode durar sem virtude, e a virtude nasce primeiro em quem é racional”. 
 
A doutrina de Pitágoras ensina que para viver a felicidade e a iluminação do espírito é necessário purificar a alma de toda paixão humana. A idéia está certa. Mas libertar a mente das ansiedades e preocupações em relação ao mundo externo é uma tarefa de longo prazo. “O homem não é nem feliz nem bom por natureza, mas é preciso disciplina e cuidados  para alcançar bondade e felicidade”, escreveu o pitagórico Hipodamus
 (2).   “Para ser bom”, disse ele, “o homem deve ter virtude. Mas para ter felicidade, ele deve ter boa fortuna.” 
O que significa a palavra “fortuna”, usada aqui por Hipodamus?   Superficialmente, é apenas boa sorte. Mas, para a filosofia esotérica,  “boa fortuna” significa bom carma. Quem parece ser protegido pela boa sorte está, na verdade, colhendo um carma positivo plantado antes, nesta  existência ou em uma vida anterior. É sempre recomendável aproveitar a oportunidade atual, portanto, plantando mais bom carma agora,  para ter o que colher no futuro.
Hipodamus deu ainda outro motivo para explicar por que nem todas as pessoas boas são felizes: “O homem bom que busca o mundo divino é feliz; mas o homem bom que busca coisas de natureza mortal é infeliz”.  A importância prática desta idéia é enorme.  Embora sejamos bons, sofreremos bastante se estivermos identificados com coisas passageiras. Mas, se possuirmos a sabedoria e o desapego necessários, poderemos conhecer uma felicidade duradoura. Isso nos leva a outro problema: administrar os momentos felizes requer talento, porque é fácil apegar-se cegamente à satisfação e destruir a fonte de felicidade.   A chave para resolver o problema, segundo Hipodamus, está na humildade e na busca contínua de inspiração interior: 
“O homem deve administrar as coisas terrenas agradáveis buscando a virtude, assim como o piloto de um barco navega nas águas observando as estrelas, mesmo quando o vento é favorável. Aquele que faz assim não só segue o ser sagrado, mas harmoniza o bem humano com o bem divino.”
Segundo Hipodamus, a felicidade individual é inseparável da felicidade coletiva: “Se não há harmonia e  inspiração divina nos assuntos diários, as coisas belas não podem permanecer em uma condição excelente.  Se não existe uma legislação justa na cidade,  não é possível  que o cidadão seja bom ou feliz. Se não houver saúde, não será possível que o pé ou a mão sejam fortes e saudáveis.  (...)  A harmonia, sem dúvida, é a virtude do mundo. A legislação justa é a virtude de uma cidade. Saúde e força são a virtude de um corpo. Nestas três coisas  – o mundo, a cidade e o corpo –  as partes vivem em função do todo e do Universo.”
Onde está o alicerce da nossa vida? Onde podemos apoiar-nos? O filósofo Estobeu registrou que “a  riqueza é uma âncora sem firmeza; a glória tem ainda menos estabilidade, assim como o corpo físico ou o poder pessoal e as honras. A prudência, a generosidade e a força interior são as âncoras poderosas. Nenhuma tempestade pode sacudi-las.”  De fato,  podemos evitar bastante sofrimento aprendendo a construir nossa vida sobre a base firme da verdade, e não sobre coisas efêmeras.  
Para os filósofos clássicos, cada ser humano é autor e diretor de sua própria vida. Ele deve construí-la como quem faz uma obra de arte. “Assim como numa estátua, todas as partes de uma vida devem ser bonitas”, ensinou Estobeu. É melhor avançar pela vida e ganhar experiência de modo integral e equilibrado. Todos os  aspectos do nosso ser devem participar da aprendizagem: deste modo,  os pontos fracos são gradualmente reduzidos e eliminados. 
“Quem é escravo das suas paixões não pode atingir a liberdade”, afirma o mesmo texto de Estobeu. Aqui o filósofo questiona as idéias superficiais sobre  liberdade.  Para ele, obedecer aos desejos animais não é liberdade.  A verdadeira liberdade surge do ato de  compreender os desejos exagerados como parte do ciclo da ignorância e da dor. Livre deles, o amigo da verdade vive moderadamente. Este equilíbrio interior traz felicidade. Traduzo mais quatro fragmentos preciosos de Estobeu sobre o uso da palavra, a ética e a pureza:

* “Fique em silêncio ou diga algo melhor que o silêncio. (...) Um conhecimento científico do mundo divino faz com que o homem use poucas palavras”.
* “Quando um homem sábio abre sua boca, a beleza da sua alma fica à mostra, como no caso das estátuas em um templo.” 
* “Aqueles que não punem os maus gostariam de agredir os bons.” 
*“Perceba  o seu corpo como a roupa do seu espírito; e, portanto, mantenha-o puro”.
Junto com a pureza e a ética, uma das questões básicas da filosofia pitagórica  é a da brevidade da vida. Quando o cidadão finalmente aceita este fato doloroso, ele encontra a paz. Hiparchus escreveu, em seu tratado sobre a tranqüilidade:
“Já que os homens vivem durante um período muito breve, se sua vida é comparada com o tempo todo que  existe, eles farão, digamos, uma viagem mais bonita se passarem pela vida com tranqüilidade. Eles terão tranqüilidade no mais alto grau se conhecerem cientificamente e com exatidão a si mesmos, isto é, se reconhecerem que são frágeis e  mortais,  que têm um corpo que pode adoecer e ser ferido facilmente, e que é ameaçado por muitas coisas seriamente prejudiciais até seu último momento de vida (...) Mas as doenças que atacam a alma são muito maiores e mais graves [que as doenças do corpo]. Porque toda conduta injusta,  má, ilegal e perversa da vida do homem se origina das paixões da alma.”
Além de observar de que modo a ignorância espiritual produz sofrimento, é preciso colocar em movimento, de fato,  a sabedoria em nossas vidas.  Em seu Tratado Sobre o Homem Bom e Feliz, o pitagórico Architas escreveu:
“Dos bens, alguns são desejáveis em si mesmos, e não por causa de outras coisas; outros são desejados por causa de um segundo objetivo e não por seu próprio valor. Porém há alguns bens que são desejados tanto por seu próprio valor quanto em função de outros objetivos. Qual é, vejamos,  o bem desejável em si mesmo, e não em função de alguma outra coisa?  Evidentemente, é a felicidade. Porque nós aspiramos outras coisas para alcançar a felicidade, mas não aspiramos à felicidade para alcançar outra coisa qualquer.  E quais são os bens que nós desejamos em função de outra meta, e não por seu próprio valor? É evidente que são as coisas úteis, que permitem obter objetivos desejados, como trabalhos corporais e  exercícios que criam bons hábitos no corpo, e também leitura, meditação e estudo, que são realizados em função da virtude e de coisas belas.  Mas quais são as coisas desejadas por seu próprio valor, e também em função de outro objetivo?  Estas são as virtudes, e os bons hábitos que vêm com elas; as decisões e ações deliberadas e conscientes,  e tudo aquilo que acompanha o que é realmente belo.”
Os pitagóricos  ensinam que o bem supremo é a justiça. Nada mais natural, porque justiça é apenas o nome ocidental da lei do Carma, que governa o universo e também cada uma das suas partes.  Theages escreveu:
“A justiça é aquilo que separa todos os erros e todas as virtudes da alma. Justiça é uma certa ordem na combinação correta das partes da alma. É uma virtude perfeita e suprema, porque todas as coisas boas estão contidas nela, mas as outras qualidades positivas da alma não podem existir sem ela. Por isso a justiça tem grande força tanto entre os deuses como entre os homens.  Esta virtude contém o laço pelo qual o todo e o universo são mantidos juntos, e pelo qual deuses e homens mantêm contato.”
Para Theages, “a virtude não está em eliminar os sentimentos da alma, mas em harmonizá-los. Porque a saúde, que é uma certa combinação das energias do corpo,  não é alcançada com a eliminação do que é quente ou frio, úmido ou seco, mas sim com a combinação correta destes elementos.  Assim também, na música, a beleza não consiste em eliminar o agudo e o grave, mas, quando eles são harmonizados, o acorde  é produzido e a dissonância é eliminada. (...)  Deste modo, quando a raiva e o desejo são harmonizados, os vícios e outras paixões são extirpados e a conduta é regenerada.” (3)
Não devemos, pois, buscar necessariamente a eliminação dos contrastes e das dificuldades nas situações concretas da nossa vida. Situações fáceis muitas vezes produzem grandes quantidades de preguiça, acomodação e rotina. Em compensação, as situações difíceis e os grandes desafios nos forçam a crescer.   
As verdadeiras causas do conflito e da ansiedade é que devem ser eliminadas. As crises servem para alargar nosso horizonte. A incerteza do futuro nos faz acordar para a necessidade de compreender a vida eterna e redescobrir conscientemente a nossa vocação para o que é infinito. 

Texto divulgado pelo www.FilosofiaEsotérica.com